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11/03/2017

Reeducandas sonham em se redimir conquistando profissão e oportunidade de trabalho em Rondônia

Das 135 mulheres reeducandas na Penitenciária Estadual Feminina de Porto Velho (Penfem), no bairro Arigolândia, 14 produzem artesanato no Projeto Reabilitando pela Reciclagem.

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, elas não se furtam a comentar crimes cometidos – a maioria infringindo o artigo 33, da Lei de Tóxicos. Algumas demonstram propósitos de emenda, e são participantes no projeto.

Do ateliê com oito máquinas de costura saem bolsas, estojos escolares, guardanapos, pastas plásticas, tapetes, cuja produção é entregue ao Ministério Público.

“Elas produzem uns 300 banners por mês e pintam pelo menos meia dúzia de quadros por semana”, conta a chefe geral de segurança, Auricélia Gouvêa.

No dia 21 de abril, Derivalda Gomes da Silva, 30 anos, completa um ano e seis meses de pena. Desde menina, conforme relata, sonhava ser costureira e, ao participar do ateliê, logo se identificou com “as máquinas ligeiras”.

Ela fala dos filhos e se enche de alegria ao revelar que conseguiu deixar o vício. “Eu começo a me sentir mulher. Antes eu era muito ignorante, até que tive esta oportunidade de estudar e trabalhar aqui dentro, mas faz quase um ano, dei um basta no cigarro; bebi muito destilado, cachaça mesmo, fumava desde menina”.

Derivalda é mãe de dois meninos e uma menina e sonha em um dia “cuidar melhor de todos eles”. O caçula nasceu com 3,50 quilos e aos três meses já alcançava os 6 quilos, mas foi levado para Lábrea (AM) pela mãe dela, dona Marinete. “Eu amamentei ele até que foi embora”, disse.

Pela manhã ela estuda, e das 13h às 16h30 entra na oficina de costura. Derivalda fará três provas para ingressar na Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Madeira-Mamoré.

ENFERMAGEM DESPERTA SABRINA

Na desventura de ter também o único irmão preso em Pimenta Bueno, pelo mesmo motivo que o seu, Sabrina de Oliveira, 25, também mãe de três filhos, pintou seus primeiros quadros e os colocou na cela onde se encontra há três anos e 11 meses. Anteriormente aprendera a fazer guardanapos.

A oficina do presídio utiliza tinta para tecido. Nas paredes da sala estreita estão expostos quadros com cenários da natureza.

Nascida em Ji-Paraná, Sabrina teve duas meninas e um menino, respectivamente com 6, 9 e 11 anos.

“Hoje eu acordo cedo para estudar e me questiono: devo continuar assim para ser uma pessoa melhor? E quero ser. O meu sonho? Quero ser técnica de enfermagem e chegar à faculdade”, disse.

Ela concluiu o Ensino Fundamental e agora ingressará no Ensino Médio. Ao relembrar o período em que a Justiça a transferiu de Pimenta Bueno para o Penfem na capital, Sabrina comenta que veio com a marca de bagunceira mesmo. “Dei muito trabalho, me revoltei, tive pavor das pessoas, mas aprendi a valorizar a vida e ver essas pessoas de outra forma. O lado bom da vida é vencer os perrengues, e minha mãe sofreu com isso, eu sei”.

Segundo Auricélia Gouvêa, a melhoria da produção depende apenas da mudança de prédio, até meados deste ano, quando será possível aumentar o rodízio entre participantes e aprendizes.

Famílias das detentas colaboram com o fornecimento de barbante. Os demais materiais são entregues ao projeto pelo Conselho da Comunidade do Sistema Penitenciário. Em geral, todo trabalho é conveniado entre o Fundo Penitenciário da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), Ministério Público e Cooperativa de Trabalho Multidisciplinar de Desenvolvimento da Amazônia (Cotama).

Segundo a presidente da cooperativa, Dulce Gonçalves Braga, a Gerência de Reinserção da Sejus auxilia com a aquisição de materiais para a confecção dos produtos, e a entidade ministra os cursos no sistema prisional. O projeto deposita mensalmente R$ 800 na conta bancária da família de cada reeducanda. Só a família movimenta o dinheiro.

LIVROS

“Livros juvenis agradam todas as que se interessam por leitura, mas nós precisamos mais de romances, livros de história, e aceitamos doações”, apela a biblioteconomista Cristiane Garcia.

O convite, da escritora canadense Oriah Mountain Dreamer, é o mais lido no momento. Na forma poética, a autora desafia a pessoa a penetrar no âmago de suas experiências de vida. Isso tem a ver com o momento de cada reeducanda, daí o interesse.

Há também exemplares do romancista, contista, cronista, diplomata, caricaturista e jornalista maranhense, Aluízio de Azevedo, autor de O Cortiço, Uma Lágrima de Mulher, entre outros.

Proposto há três anos pelo Conselho Nacional de Justiça, o Projeto Remição pela Leitura começa a crescer nos presídios estaduais e federais, e Cristiane também espera sua consolidação no Presídio Feminino, a exemplo das oficinas de leituras instaladas pelos Tribunais de Justiça em alguns estados.

“Juízes da Vara da Execução Criminal recebem relatórios de uma comissão constituída pela Sejus e pela Secretaria de Estado da Educação Seduc, e dessa maneira, aquelas que frequentam a sala de leitura obtêm quatro dias de remição [modalidade de extinção de obrigação no processo civil, trabalhista e fiscal] da pena”, explicou Cristiane.

Fonte

Texto: Montezuma Cruz

Fotos: Daiane Mendonça

Secom - Governo de Rondônia

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