sexta-feira, julho 19, 2019
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Parolin: “Com a China estamos inaugurando um método positivo”

Na longa entrevista concedida ao jornal chinês Global Times, o Secretário de Estado do Vaticano afirma esperamos “alcançar progressivamente resultados concretos”.

Cidade do Vaticano

“Como sinal dos positivos desenvolvimentos nas relações sino-vaticanas, as últimas celebrações da Páscoa realizaram-se de forma pacífica em toda a China e a participação de um representante do Vaticano na Exposição Internacional de Horticultura em Pequim, atraiu uma atenção positiva”. O Cardeal Pietro Parolin, “concedeu uma entrevista exclusiva ao Global Times”.

Inicia com esta nota editorial a longa entrevista concedida pelo Secretário de Estado do Vaticano aos jornalistas Francesco Sisci e Zhang Yu. No decorrer dos colóquios, Parolin falou sobre os recentes desdobramentos do Acordo Provisório entre a China e a Santa Sé.

Significado e funcionamento do acordo

 Respondendo a uma pergunta sobre o diálogo em andamento e sobre como se está  procedendo após a assinatura do Acordo Provisório sobre a nomeação de bispos na China, assinado em 22 de setembro de 2018, o Secretário de Estado afirmou: “As duas partes estão bem conscientes de que tal ato constitui o ponto de chegada de um longo caminho, mas é acima de tudo um ponto de partida. Há confiança de que se possa agora abrir uma nova fase de maior colaboração para o bem da comunidade católica chinesa e para a harmonia de toda a sociedade. Os canais de comunicação estão funcionando. Existem elementos que mostram um aumento na confiança entre as duas partes. Estamos inaugurando um método que parece positivo e que certamente ainda precisará sofrer ajustes ao longo do tempo, mas que, no momento, nos traz esperança de que possamos alcançar progressivamente resultados concretos. Devemos caminhar juntos, porque somente assim poderemos curar as feridas e incompreensões do passado, para mostrar ao mundo que, também a partir de posições distantes, acordos frutíferos podem ser alcançados. Gostaria de enfatizar um aspecto particularmente caro ao Papa Francisco: isto é, a verdadeira natureza do diálogo. Nele, nenhuma das duas partes renuncia à sua própria identidade e ao que é essencial para o cumprimento da própria missão. A China e a Santa Sé não estão discutindo sobre a teoria de seus respectivos sistemas, nem querem reabrir questões que agora são parte da história. Em vez disso, estamos buscando soluções práticas para as vidas de pessoas concretas, que desejam praticar a própria fé com serenidade e oferecer uma contribuição positiva para o seu próprio país».

As oposições ao diálogo

O cardeal Parolin respondeu então a uma pergunta sobre a oposição interna em relação ao Acordo e às vozes dissidentes internas, na Igreja. “Como costuma ocorrer com questões complexas e quando se é colocado diante de problemas de grande alcance, também no específico das relações sino-vaticanas, é um fato normal que se confrontem diferentes posições e sejam propostas também soluções diferentes, dependendo dos pontos de vista do qual se parte e das preocupações que prevalecem. Por isto, não é de se surpreender diante das críticas, que podem surgir tanto dentro da Igreja quanto na China ou em outras partes, por uma abertura que pode parecer inédita após um longo período de confronto. E parece-me humano e cristão manifestar compreensão, atenção e respeito por aqueles que os expressam. Claro, nem todos os problemas estão resolvidos! Tantas questões ainda precisam ser tratadas e estamos fazendo isso com boa vontade e determinação. Estou bem consciente de que aqui ninguém tem no bolso a verdade absoluta (ou a varinha mágica!), mas também posso dizer que estamos empenhados em encontrar soluções duradouras, que sejam aceitáveis ​​e respeitosas de todos. Obviamente, outra coisa são as críticas que vêm de posições preconceituosas e que parecem visar apenas a preservação de velhos equilíbrios geopolíticos. Para o Papa Francisco – que está bem ciente do que aconteceu no passado recente – o principal interesse no diálogo em curso é pastoral. Ele está realizando um grande ato de confiança e de respeito pelo povo chinês e sua cultura milenar, com a motivada esperança de receber uma resposta igualmente sincera e positiva”.

Os frutos do diálogo

 O Secretário de Estado então acrescentou: “O mais importante é que o diálogo seja capaz de construir progressivamente um consenso mais amplo, justamente produzindo frutos abundantes. Um primeiro e duplo fruto, perceptível com um olhar mais apurado, já existe: por um lado, começamos a superar as recíprocas condenações, nos conhecemos melhor, ouvimo-nos mutuamente, entendemos melhor as necessidades do interlocutor; por outro lado, abre-se a perspectiva de que dois sujeitos internacionais tão antigos, vastos e articulados – como a China e a Sé Apostólica – tornem-se cada vez mais conscientes da responsabilidade comum perante os graves problemas do nosso tempo. Aos desafios globais devem corresponder respostas globais. E o catolicismo, por sua natureza, é um fato global, capaz de favorecer de forma original a busca de sentido e de felicidade, de consolidar o valor de pertença a uma específica cultura, e ao mesmo tempo, de experimentar a fraternidade universal. Como ressaltou  recentemente um bispo chinês, as comunidades católicas na China pedem hoje para serem plenamente integradas na comunhão universal, levando à Igreja o dom de serem chineses”.

Evangelho, inculturação e “sinização”

 No tocante ao processo de inculturação do Evangelho e do processo de “sinização” das religiões, realizado pelas autoridades chinesas, o Secretário de Estado declarou: “A inculturação é condição essencial para um bom anúncio do Evangelho, que para dar frutos requer, por um lado, a salvaguarda da sua autêntica pureza e da sua integridade, e por outro lado, de ser declinado de acordo com a peculiar experiência de cada povo e cultura. Disto é testemunha exemplar a fecunda experiência de Matteo Ricci, que soube fazer-se autenticamente chinês nos valores da amizade humana e do amor cristão. Para o futuro, será certamente importante aprofundar este tema, especialmente a relação entre “inculturação” e “sinização”, tendo presente que a liderança chinesa teve a oportunidade de reiterar o desejo de não afetar a natureza e a doutrina de cada religião. Esses dois termos, “inculturação” e “sinização”, referem-se um ao outro sem confusão e sem contraposição: podem ser, de alguma forma, complementares e abrir perspectivas para o diálogo no plano religioso e cultural. Eu diria, por fim, que os principais protagonistas deste esforço são os católicos chineses, chamados a viver a reconciliação, para serem autenticamente chineses e plenamente católicos”.

O terreno comum dos desafios a serem enfrentados

 Respondendo a uma pergunta dos dois jornalistas do Global Times a propósito dos campos de possível colaboração entre a Santa Sé e a China, o purpurado observou: “Muitos são hoje os desafios globais que exigem ser enfrentados em um espírito de positiva colaboração. Penso aqui, em particular, às grandes questões da paz, da luta contra a pobreza, das emergências ambientais e climáticas, das migrações, da ética do desenvolvimento científico, do progresso econômico e social dos povos. Para a Santa Sé, é de primordial importância que em todos estes âmbitos a dignidade da pessoa seja restituída ao centro, a começar pelo concreto reconhecimento  dos seus direitos fundamentais, incluindo o da liberdade religiosa e o bem comum, que é o bem de todos e de cada um. São horizontes muito amplos que hoje, mais do que nunca, exigem um esforço comum por parte de todos, crentes e não crentes. A Santa Sé continuará a desempenhar o seu papel no âmbito da comunidade internacional e está disponível para qualquer iniciativa que promova o bem comum”.

Uma mensagem para o líderes políticos

 Solicitado a propor uma mensagem aos líderes políticos no atual contexto internacional, o cardeal Parolin disse: “Hoje, mais do que no passado, os líderes políticos são chamados a enormes responsabilidades. O que acontece em nível local tem repercussões quase imediatas em nível global. Estamos todos interconectados, motivo pelo qual as palavras e decisões de poucos influenciam a vida e o modo de pensar de muitos. Como homem de fé e como sacerdote, gostaria de convidar quem tem responsabilidades políticas diretas, a levar em consideração esse poder de influência sobre os povos, um poder que pode provocar vertigens. Gostaria de dizer a eles que, mesmo nas situações mais difíceis e em face de escolhas mais complexas, não tenham receio de elevar o olhar, para além dos sucessos imediatos, para buscar sem pré-condições soluções duradouras e perspicazes, que contribuam para a construção de um futuro mais humano, mais justo e mais digno para todos. Permito-me assinalar, a este propósito, a Mensagem do Papa Francisco para a celebração do 52º Dia Mundial da Paz de 1º de janeiro de 2019, intitulado: “A boa política a serviço da paz”, que oferece preciosas indicações a todos aqueles com responsabilidades políticas”.

As recordações do cardeal das longas negociações

 O secretário de Estado recontou então suas recordações sobre as longas negociações com as autoridades chinesas. «Mantenho vivas e gratas recordações do período em que, como subsecretário para as Relações com os Estados, tratei com os representantes chineses e agradeço ao Senhor por ter-me concedido fazer essa bela experiência. Não faltaram, naturalmente, preocupações e temores. Em não poucas ocasiões, pareceu-me que nunca conseguiríamos fazer progressos e que tudo seria interrompido. Mas prevaleceu, em ambas as partes, o desejo de seguir em frente e,  com paciência e determinação, buscamos superar os obstáculos do caminho. Assim, precisamente isto permaneceu impresso em minha memória. Os momentos mais bonitos foram aqueles em que vivemos juntos momentos de familiaridade e de amizade, que nos permitiram nos conhecer e de nos apreciar mais uns aos outros e, no final das contas, de compartilhar a humanidade que nos une para além das diferenças que existem entre nós. Trata-se de situações que têm um profundo valor em si mesmas, mas que foram também úteis em criar uma atmosfera mais favorável durante as negociações. Lembro-me, em particular, de um dia inteiro transcorrido em Assis com a delegação chinesa, em um domingo de primavera: os fascinantes lugares franciscanos e o clima que se criou entre nós, abriram meu coração para uma grande esperança, que me sustentou nos anos sucessivos e que ainda me sustenta. Disso vimos as primeiras realizações e, com a graça de Deus, veremos delas mais ainda, para o benefício de toda a comunidade católica chinesa, a qual abraço fraternalmente – em primeiro lugar aqueles que mais sofreram e sofrem – e de toda a população daquele país, para o qual desejo sinceramente todo bem”.

As palavras para o povo chinês e para quem o guia

No final da longa entrevista, o cardeal Pietro Parolin quis transmitir “aos líderes, mas também a todos os chineses, a saudação, as felicitações e a oração do Papa Francisco. Aos católicos, em particular, o Santo Padre pede para empreenderem com coragem o caminho da unidade, da reconciliação e de um renovado anúncio do Evangelho. Ele olha para a China não apenas como um  grande país, mas também como uma grande cultura, rica de história e sabedoria. Hoje a China voltou a despertar grande atenção e interesse em todos os lugares, especialmente entre os jovens. A este respeito, a Santa Sé espera que a China não tenha medo de entrar em diálogo com o resto do mundo e que as nações do mundo deem crédito às profundas aspirações do povo chinês. Desta forma, trabalhando todos juntos, estou certo de que seremos capazes de superar a desconfiança e construir um mundo mais seguro e mais próspero. Com as palavras do Papa Francisco, diríamos que somente unidos poderemos superar a globalização da indiferença, trabalhando como artífices criativos da paz e tenazes promotores da fraternidade”.

Fonte: Global Times

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