Porto Velho, 14 de dezembro de 2019
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Santa Sé: mundo precisa de líderes políticos e sociais guiados pela ética

O observador permanente da Santa Sé junto à Fao, Mons. Arellano, evidencia que os atores internacionais muitas vezes acobertam a falta de uma ética adequadamente sólida. Daí, a evocação à responsabilidade dos líderes políticos e sociais, “chamados a avaliar o impacto moral das ações das quais se fazem promotores”, conscientes de que “toda iniciativa de amplo alcance que se queira levar adiante, além de incidir na vida concreta de milhões de pessoas, contribui significativamente para difundir uma determinada mentalidade”

Cidade do Vaticano

Os dilemas que incidem o setor agrícola e alimentar são muitos, e são poucas as certezas sobre como evitar riscos catastróficos para o ambiente – ventilados pela comunidade científica –, que colocam em risco a saúde humana e comprometem um futuro de prosperidade e paz para toda a humanidade. Nesse cenário é necessário refletir e agir segundo princípios éticos que possam dar respostas capazes de dominar os eventos e não ser submetidos pelos mesmos.

Desenvolvimento sustentável exige sistema alimentar équo

Essa premissa não declarada, mas subentendida, que esteve presente nos pronunciamentos dos relatores no Seminário, esta quarta-feira (13/11) em Roma na sede da Fao – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – , centralizado na ideia de um desenvolvimento sustentável a partir de um sistema equânime produtivo e distributivo dos recursos alimentares.

Introduzido pelo presidente da Fundação Ratzinger, Pe. Federico Lombardi, S.J., e pela vice-diretora geral da Fao, Maria Helena Semedo, o encontro teve as intervenções do presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, Stefano Zamagni; do embaixador da Itália junto à Santa Sé, Pietro Sebastiani; do reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, Vincenzo Buonomo; e do observador permanente da Santa Sé junto à Fao, Mons. Fernando Chica Arellano.

Zamagni: não a uma cultura de aceitação acrítica

Entre os perigos à espreita em nosso tempo, encontra-se, advertiu o prof. Zamagni em sua relação-guia, aquela espécie de “aceitação acrítica do que está ocorrendo”. “Bastam poucos dados para dar-nos conta da medida do que está em jogo”: a população mundial passará dos atuais 7 bilhões e 200 milhões para quase 10 bilhões em 2050. Por conseguinte, segundo o Banco Mundial, a produção agrícola deverá crescer 70%, com um aumento de 30% das terras cultivadas.

Gerir aumento de produção agrícola e consumos de carne

Deve-se acrescentar a isso – recordou Zamagni –, o aumento do consumo de carne, determinado pelo crescimento das rendas. Hoje, o consumo médio de carne no América do Norte é de 83Kg anuais por pessoa, na União Europeia é de 62Kg, na Ásia é de 28Kg e na África é de 11Kg.

A Fao previu que, em 2050, os consumos de carne aumentarão 76% a nível global, consequência dos aumentos previsíveis das rendas na Ásia e África. Isso terá um impacto enorme no consumo de água, considerando que para se produzir um Kg de cereais é preciso um metro cúbico de água e para um Kg de carne são necessários 15 metros cúbicos.

“Se, de algum modo, não intervirmos, ‘o desmatamento e o esgotamento das reservas de água serão as consequências trágicas e imediatas’.”

Outros estudos documentam que se a humanidade renunciasse à criação de animais para abatimento, o uso dos terrenos agrícolas se reduziria em mais de 75%, porque grande parte dos cultivos é destinada à forragem para os animais, gerando cerca de 60% das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa.

Segundo o presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, uma ajuda poderia ser dada, além da contribuição oferecida por corretos estilos alimentares, também pelas novas biotecnologias aplicadas aos alimentos, para a produção direta de carne em laboratório; embora essas práticas experimentais – bem o sabemos – ainda suscitem muitas dúvidas e resistências”.

Reduzir desperdícios e perdas alimentares

Outro tema urgente diz respeito aos desperdícios e às perdas alimentares, em que um terço da produção mundial de alimento se perde ou se desperdiça ao longo da fileira alimentar: 32% na fase de produção, 22% nas fases sucessivas à colheita, 13% na fase de distribuição, 22% na fase do consumo. 56% desses desperdícios se verifica nos países desenvolvidos, o restante 44% nos países emergentes e em desenvolvimento.

Mercado dominado por pouquíssimas multinacionais

Ademais, há os aspectos financeiros e econômicos do mercado a ser avaliados, que direcionam as políticas agrícolas e condicionam a volatilidade dos preços dos gêneros alimentícios.

Entre os aspectos mais inquietantes, o prof. Zamagni indicou a progressiva concentração nas mãos de um restrito grupo de multinacionais que detém o controle das sementes e da agricultura mundial.

“Em 1981 mais de 7 mil empresas atuavam neste setor, ao passo em que hoje 4 grupos (Bayer-Monsanto, Dow-Dupon, Chem China-Syngenta, Basf) controlam quase 90% do mercado em sua totalidade.”

Além disso, 10 empresas de transformação controlam 70% do mercado de alimento. Enquanto se evoca a livre concorrência em economia, se toleram processos de concentração de empresa e do capital jamais vistos precedentemente.

Outra questão também importante diz respeito aos fenômenos do ‘land grabbing’, o açambarcamento de terras, verificado em países em desenvolvimento por parte de sujeitos terceiros, que especulam em detrimento das populações locais.

Arellano: falta uma ética sólida nas relações internacionais

A esse propósito, o observador permanente da Santa Sé junto à Fao, Mons. Arellano, evidenciou que os atores internacionais muitas vezes acobertam a falta de uma ética adequadamente sólida, capaz de conferir-lhe um lúcido domínio de si, bem como da própria missão”.

Daí, a evocação à responsabilidade dos líderes políticos e sociais, “chamados a avaliar o impacto moral das ações das quais se fazem promotores”, conscientes de que “toda iniciativa de amplo alcance que se queira levar adiante, além de incidir na vida concreta de milhões de pessoas, contribui significativamente para difundir uma determinada mentalidade”.

Líderes humildes, prudentes, empáticos, abertos e coerentes

Mas quais são os traços de um líder com dotes éticos? Segundo o representante vaticano, são, em primeiro lugar, a humildade e a consciência dos próprios limites; a prudência, ou seja, a capacidade de discernimento, de antecipação das consequências; a empatia aos problemas e aos sofrimentos dos outros; a abertura à novidade, saber ler os sinais dos tempos; a coerência.

O futuro de cada um depende dos outros

“Disso aprendemos que o líder deve ser alguém que age e não somente fala. E no mundo globalizado de hoje, a ação se torna cooperação, na solidária consciência de que o futuro de um depende dos outros”, concluiu Mons. Arelano.

A liderança, portanto, “não é questão de habilidade na ars oratoria, nem de ostentação da cultura, mas de testemunho. Disso se dão conta muito bem e o exigem de modo direto, os jovens, que vivem numa fase da vida em que os grandes sonhos e os ideais não devem deixar espaço para a resignação diante de uma realidade que se apresenta de modo decepcionante e aquém de suas expectativas”.

Fonte: Vatican News

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