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Porto Velho, 30 de novembro de 2021 - 20h13
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Com diálogo, tudo é possível

Georges Salines e Azdyne Amimour são dois pais de família. No dia 13 de novembro de 2015, na noite do atentado ao Bataclan de Paris, seus filhos encontram-se em uma trágica circunstância

Jean Charles Putzolu

Georges Salines é medico. Azdyne Amimour é comerciante. Ambos tiveram uma vida movimentada. Georges trabalhou em vários países e até se estabelecer em Paris com sua família. Azdyne é um incansável aventureiro. Fixou moradia nos arredores de Paris depois de ter viajado pelo mundo. Georges considera-se ateu “de raízes cristãs”. Azdyne é muçulmano, praticante, mas não muito, porém é profundamente ligado aos valores do Islã.

Apresentados deste modo, estes dois homens poderiam nunca ter se encontrado. Todavia, os acontecimentos de 13 de novembro de 2015 mudaram seus destinos.

Lola, a filha de Georges, estava na famosa sala de espetáculos “Bataclan” de Paris para assistir ao show do grupo rock americano “Eagles of Death Metal”. Lola, tinha 28 anos e trabalhava no campo editorial para crianças. Chegou até mesmo a criar sua microempresa. Era feliz, embora passasse a maior parte do seu tempo no trabalho, mas também viajava muito. Viajar faz parte do DNA de sua família. As viagens satisfazem a sua sede de conhecimentos, de fuga e de natureza. Naquela noite, Lola não resistiu. Alvejada por dois tiros, morreu instantaneamente.

Azdyne não tinha mais contato com seu filho. Nos últimos anos suas relações eram tensas e na noite de 13 de novembro de 2015 não tinha a menor ideia de onde estaria Samy. Azdyne e sua esposa Mourna receberiam a informação pouco depois de que Samy era um dos três terroristas do Bataclan.

Na noite de 13 de novembro de 2015, em Paris, em 33 minutos acontece o inferno. Sete terroristas que se declaram membros do Estado Islâmico atacam três lugares diferentes da capital francesa. Às 21h20 ocorreu um ataque suicida diante do Stade de France. O barulho da detonação chegou dentro do estádio onde a seleção francesa encontrava a seleção alemã. Alguns jogadores ficaram surpresos pelo estrondo, levantaram a cabeça, mas o jogo não parou. O Presidente da República, François Hollande, deixou o estádio pouco depois da detonação. Foi informado dos acontecimentos e acompanhou a unidade de crise.

Pouco depois, às 21h25, outros três terroristas atacaram com metralhadoras em um outro bairro de Paris disparando nas pessoas que estavam sentadas nos cafés da Rue de la Fontaine-au-Roy. Em seguida foram até a Rue de Charonne às 21h36 e continuaram o massacre. Os pedestres ficaram encurralados.

Em seguida, o terceiro comando entra em ação no Bataclan onde 1.500 pessoas assistiam um show. Três homens armados entraram no local e atiraram nas pessoas indiscriminadamente. As cenas são indescritíveis.

Estes três ataques simultâneos causaram a morte de 130 pessoas e 350 feridos. Abalaram todo o país e mudaram para sempre a vida de Georges e Azdyne, cujo filho Samy, naquela noite foi morto pela polícia junto com outros seis terroristas.

Samy foi “treinado” na Síria. Tinha se unido ao grupo jihadista Daesh. Azdyne, que condena firmemente o fundamentalismo, fizera uma viagem até lá para tentar convencê-lo a mudar de ideia. Mas sem resultado. Hoje sofre de sentimento de culpa: “O que fiz para que meu filho agisse deste modo?” Vivia perseguido por esta pergunta, junto com muitas outras. Frequentava grupos de discussão de famílias de jihadistas que como ele, tinha filhos na Síria e não entendiam. Se por um lado esta participação o ajudava, por outro falta algo para aceitar o luto. Azdyne não conseguia se conformar.

Depois dos atentados, Georges criou uma associação de famílias de vítimas e de sobreviventes. Por um certo período assumiu a presidência da associação que tem como nome “13 de novembro: Fraternidade e Verdade”. Os jornalistas o conheciam e seu nome circulava em várias entrevistas devido à midiática e desesperada busca pela filha e se tornou uma das principais personalidades na luta pelos direitos das vítimas dos ataques. Georges também estava de luto, a associação e o livro que escreveu logo depois dos ataques “O indizível de A a Z” servia como terapia para ajudá-lo a superar o impossível. Não se refugiou na oração, não acreditava em nada. Não tinha sentimento de ódio, raiva ou vingança. Não entendia “o absurdo”.

Azdyne precisava ir além para superar o “seu” impossível. Os grupos de discussão que frequentava não lhe oferecia plenamente o que buscava, não conseguia aprofundar a questão e sentia necessidade de saber o que acontecia do outro lado.

O outro lado são as famílias das vítimas. Através de terceiros, Azdyne propõe um encontro com Georges. Estamos no início de 2017, pouco mais de um ano depois dos atentados.

Georges recebeu um telefonema com o pedido de Azdyne. Ficou surpreso, um pouco desestabilizado com o pedido. Por que o pai de um terrorista do Bataclan queria encontrá-lo? Ele estaria disposto a encontrar o pai do jovem que poderia ser o assassino de sua filha?

Não recusou o encontro. Georges pensou que, no fundo, este homem que queria encontrá-lo também é uma vítima, um pai que perdeu seu filho. Concluiu que Samy, o terrorista, também é uma vítima; uma vítima de ideias absurdas que ele e outros fundamentalistas propagam, estimuladas por manipuladores. Naturalmente, Georges foi informado no momento do pedido, que Azdyne não compartilha com nenhuma das ideias fundamentalistas dos que instrumentalizam a sua religião. Assim aceitou o encontro e com uma amiga que faz parte da associação de vítimas foi a um café na Praça da Bastilha, no centro de Paris.

Quando Azdyne chegou, Georges levantou-se bastante tenso. Assim como Azdyne que de algum modo acreditava que Georges era mais corajoso do que ele em aceitar o encontro. “Já tinha perdido tudo”, diz Azdyne. “Estava do lado errado da história”, prossegue. “Aceitando de me encontrar, George tinha muito mais a perder do que eu”, acrescenta. “É um homem conhecido na mídia, presidente de uma associação de vítimas que está presente com frequência na rádio e na televisão e portanto o que as pessoas pensarão dele ao vê-lo se encontrar com o pai de um terrorista?”. Por outro lado, Georges fez-se a mesma pergunta. Antes, falou sobre este encontro com o grupo da sua associação antes de aceitá-lo. A ideia foi acolhida muito bem, mas na realidade não foi sempre assim.

Foi-lhe pedido muitas vezes para explicar o seu gesto. Algumas vezes renunciou a explicação aos que não queriam entendê-lo. Georges não insiste muito nestas circunstâncias, intui que as feridas ainda estão abertas e são dolorosas e que cada um segue seu próprio caminho para se reconstruir. O caminho de Georges, como o de Azdyne, passa por este café da Praça da Bastilha.

A mão de Azdyne estende-se a Georges, na manhã de fevereiro de 2017. As duas mãos se encontram e se cumprimentam. Sentam-se e se apresentam. A conversa, tímida no início, logo assume um tom mais relaxado. “Azdyne é uma pessoa comovente”, diz Georges. E acrescenta: “cativante”. Falam de suas vidas, de suas famílias e naturalmente falam de Lola e Samy, mesmo sendo doloroso para os dois homens. “Foi a minha primeira terapia”, disse Azdyne. “Não fui a nenhum psicólogo depois do atentado. Foi-me proposto, mas não faz parte de mim. Queria superar a minha tragédia sozinho”. O encontro com Georges permitiu-lhe concluir um círculo.

Os dois homens encontraram-se várias vezes. A relação entre eles tornou-se amistosa. Ou num café ou restaurante, mas não na casa de um ou de outro. Mantiveram sempre uma certa distância, mesmo breve.

Quando se encontram, chegam a pensar que o atípico percurso comum possa se tornar uma mensagem. Quanto mais tempo passam juntos, conversam, se dão conta que este diálogo tem uma grande força. Ajuda a superar os sentimentos de ódio, a possível sede de vingança, as incompreensões e tudo o que em última análise leva a divisão de uma sociedade. Juntos, lançam uma mensagem exatamente oposta à dos terroristas. Com o diálogo, tudo é possível.

Para que esta mensagem pudesse chegar além dos muitos encontros , George e Azdyne decidiram escrever um livro, contar suas histórias, suas conversas, sua aproximação e suas divergências. Porque obviamente há divergências, mas não são mais fontes de divisão. Não foram superadas e provavelmente jamais o serão, mas são compreendidas e aceitas.

A decisão de publicar as conversas também é um ato político, afirma Georges Salines. “Se o pai de uma vítima pode falar com o pai de um terrorista, eu devo poder conversar com meu vizinho muçulmano. Essa ação e essa capacidade de ver o outro como um ser humano faz parte da promoção da resiliência. Aqueles que se dobram a um ato de vingança erram”, conclui o pai de Lola.

O título escolhido para o livro é “Nos restam as palavras”.

Fonte: Vatican News
Foto: Capa do livro escrito por Azdyne Amimour e Georges Salines

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