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Porto Velho, 28 de novembro de 2021 - 19h34
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Você sabe o que significa santidade digital?

Talvez o leitor, ao deparar-se com o título deste artigo “Santidade digital”, logo pense que o assunto seja pornografia nos meios de comunicação, vídeos pornográficos ou outros assuntos relacionados à sexualidade humana.

Poderia tratar aqui de vários ciberpecados, e cito alguns: cyberbulling, fake news, ciberterrorismo, guerra e espionagem cibernética, roubo digital, hackers, pedofilia e pornografia digital, tráfico de pessoas, mercado negro, dark web etc. Mas meu interesse aqui é outro assunto, quero refletir sobre “intolerância ou agressões intracatólicos nas redes sociais”. Percebo isso acontecendo assustadoramente nas redes sociais com a postagem de opiniões agressivas, violentas, com ódio e preconceitos contra o diferente e a diferença no interior do próprio catolicismo.

A polarização é um fenômeno tão antigo quanto a humanidade, mas agora tende a aumentar exponencialmente em face das mudanças e incertezas em grande escala. Ao interno do catolicismo (divisões intraeclesiásticas), as polarizações agressivas são vistas como uma ameaça à fraternidade e comunhão eclesial.

Abordo, neste artigo, o fenômeno do ódio digital entre católicos, da intolerância nas redes sociais presente de modo cada vez mais forte nos vários âmbitos e que desafiam a evangelização. A intolerância ao interior do catolicismo é antievangelização.

Quando pensamos o ambiente digital como uma simples rede de cabos, tudo se torna permitido, afinal, cabos não são pessoas. O ambiente digital não é só virtual feito de cabos, ele é um mundo real, pois, além do desempenho de tarefas profissionais, comerciais, educacionais, médicas, relacionais, alcançam toda a esfera de atividades sociais. Quando falamos em rede social, não se trata de um emaranhado de cabos ou dispositivos digitais, compreende aqui como um “lugar rico em humanidade, pois não é tecido por cabos, mas sim por relações humanas”, afirma o Papa Francisco (Papa Francisco).

A comunidade digital

Neste artigo, refiro-me a uma nova comunidade que é única em dois modos de presença: a comunidade presencial ou física (off-line), constituída de carne e osso, e a comunidade digital ou ambiente digital (on-line) também real. Uma mesma comunidade constituída de duas formas diferentes que se complementam e se condicionam. Constituem um só corpo, pois estamos falando de pessoas e não de bytes.

O espaço digital tornou-se hoje “lugar antropológico” e cada vez mais religioso e sagrado. A internet se torna cada vez mais um lugar de virtual communities, de comunidades virtuais, e com isso é um lugar de reflexão, “locus” da vida cristã. A ciberteologia, termo criado pelo Jesuíta italiano Spadaro, em 2012, é entendida como novo campo teológico, definida como “pensar a fé cristã nos tempos da rede”.1 Dessa experiência religiosa surgem debates políticos, religiosos, morais, ritos litúrgicos etc.

Um dos maiores perigos na “comunicação digital” consiste na possibilidade de descaracterização e negação da pessoa. O ambiente das redes sociais, aparentemente inofensivo, imparcial, irrompe com força destrutiva capaz de ferir o outro. Na Fratelli Tutti n.44, o Papa Francisco afirma que o comportamento intolerante nas redes “favorece o aumento de formas insólitas de agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais até destroçar a figura do outro, num desregramento tal que se existisse no contato pessoal acabaríamos todos por nos destruir entre nós”.

Aprendizagem e conhecimento x Posicionamentos irresponsáveis

A internet criou um paradoxo, ela pode ser um grande espaço de aprendizagem e compartilhamento de conhecimento, mas também criou, ao democratizar a informação e as manifestações, um espaço de posicionamentos sem critérios de responsabilidade, no qual o anonimato pode servir de instrumento para a disseminação da violência, de intolerância e do ódio contra pessoas e instituições, até intracatólicos.

O ciberpecado é um comportamento de caráter moral que caracteriza o que se chama de pecado estrutural digital ou da rede.  Essa violência verbal nasce primeiro no coração humano, e pode ser posteriormente fomentada, expandida pelas redes sociais. Ainda mais grave, pois a internet potencializa a propagação dos pecados que cometemos da difamação, da fofoca, do desrespeito pelo outro, das mentiras, e torna muito mais difícil ou até mesmo impossível a reparação. Afirma o Papa Francisco: “A agressividade social encontra um espaço de ampliação incomparável nos dispositivos móveis e nos computadores” (Fratelli Tutti, n.44).

Como podemos “apagar”, “reparar”, uma calúnia verbal, violência, fofoca, agressão que foi jogada nas redes? A gravidade de um pecado cometido on-line pode ser até mais grave que o pecado cometido off-line. Além do pecado pessoal, a militância do ódio nas redes, comete-se também o pecado social pelo enorme dano à comunhão eclesial. “Por um desígnio do mistério inerente à existência humana, somos muito mais poderosos no mal que no bem, somos capazes de plantar uma flor e muito capazes de destruir um jardim inteiro” (Sergio Valle). Isto “também nos faz entender como o pai da mentira, o acusador, o demônio, age para destruir a unidade de uma família, de um povo”.2

O mandamento do amor ao próximo também é válido no ambiente digital

Como apresenta Massimo Faggioli, nesta ‘era da raiva’, vem surgindo, particularmente no ambiente digital, “um novo tipo de censura que usa da violência verbal para intimidar os católicos individuais, assim como as instituições dentro da Igreja”. Os sujeitos de tais práticas formam aquilo que o autor chama de “cibermilícias católicas, propagandistas verbalmente violentos das mídias sociais católicas”.3 Isso ajuda a entender a armadilha em que frequentemente caímos quando nos deixamos levar pelo espírito de discussão, pelo “vírus da divisão”.

Quem está do outro lado da tela? Uma pessoa ou um byte? Muitos agridem o outro no ambiente digital como se do outro lado não tivesse um irmão uma irmã. O mandamento do amor ao próximo também é válido para o ambiente digital. Não estou discutindo aqui as divergências de ideias, opiniões, a diferença de pensamentos, isto é uma riqueza para a sociedade. O problema é quando esta divergência é projetada para o indivíduo; quando se transforma em intolerância e se manifesta através de opiniões agressivas, violentas, discriminatórias contra a pessoa. Muitos transformam esta intolerância em ódio pessoal camuflado de defesa da sua opinião. Fomenta assim o fenômeno do ódio digital, “odiador” (hater) digital. O ódio privado se transforma em ódio público.

Na sua carta encíclica Fratelli Tutti n.46, o Papa Francisco reconhece certas situações “que induzem a destruir os outros, são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem ‘fazer parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia, e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia’. Agindo assim, qual contribuição se dá para a fraternidade que o Pai comum nos propõe?”.

Como viver a santidade digital?

Na Exortação apostólica Gaudete et Exsultate n.21, o Papa Francisco aprofunda o sentido de santidade: “A santidade nada mais é do que a caridade plenamente vivida”. “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (Gaudete et Esxultate n.14). Ao afirmar que todos somos chamados a ser santos onde cada um se encontra, com certeza o Papa refere-se também ao ambiente digital e às diversas presenças nas redes.

Diante da intolerância no ambiente digital, a “santidade digital” acontece com a “Fraternidade”, “amizade social” e “diálogo”. Em relação aos conflitos nas redes, o Papa Francisco exorta a “permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta. […] ‘Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?” (Gaudete et Esxultate n.112). Centrar-se em Deus “impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração” (Gaudete et Esxultate n.116). “O santo não gasta suas energias a lamentar-se dos erros alheios” e “evita a violência verbal que destrói e maltrata” (Gaudete et Esxultate n.116). “Reagir com humilde mansidão: isto é santidade” (Gaudete et Esxultate n.74).

Somos chamados à unidade

O próprio Jesus, na hora da sua Paixão, pediu “que todos sejam um” (Jo 17, 21). Cristo chama todos os seus discípulos à unidade (sint unum). A fraternidade e a amizade social são formas atuais e prospectivas de vivermos a dinâmica do sint unum. “Aqui está um segredo da existência humana autêntica, já que ‘a vida subsiste onde há vínculo, comunhão, fraternidade; e é uma vida mais forte do que a morte, quando se constrói sobre verdadeiras relações e vínculos de fidelidade. Pelo contrário, não há vida quando se tem a pretensão de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte’” (Fratelli Tutti n.87).

A Santíssima Trindade é a fonte última e o modelo da unidade que os cristãos devem viver, na sua experiência de caminhada comunitária.  Neste sentido, não fazem qualquer sentido as divisões, as agressões, os ciúmes, as rivalidades, as invejas, os ódios, as divergências que tantas vezes dividem as irmãs e os irmãos da mesma comunidade. Quando os cristãos não se esforçam por caminhar unidos, provavelmente ainda não descobriram os fundamentos da sua fé.

As diferenças legítimas nunca devem ser vistas como algo negativo, mas como uma riqueza para a vida da comunidade; não devem levar ao conflito e à divisão, mas a uma unidade cada vez mais estreita, construída no respeito e na tolerância. A diversidade é um valor que não pode nem deve anular a unidade e o amor dos irmãos.4

A pessoa santa relaciona-se nos diversos ambientes, on-line ou off-line, fundamentada na caridade, afirma Jesus: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Diante do aumento da agressão verbal nas redes, o Papa Francisco nos exorta para o “cultivo da amabilidade”, que é “um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno, suave, que sustenta e conforta” (Fratelli Tutti n.223). O cristão deve trazer em seus lábios sempre “palavras de incentivo que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam” (Fratelli Tutti n.223).

Comunicação Social

Na mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014, “Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro”, o Papa Francisco “ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Como se manifesta a ‘proximidade’ no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais?”

“Quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada” (Lc 10,29), afirma o Papa Francisco. Em se tratando das redes, pergunta-se: quem se encontra do outro lado da “estrada”, da tela? É aquele que devo fazer-me próximo e amá-lo como Deus o ama: “Este é o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este é o grande desafio da proximidade, ou seja, de se fazer próximo em tempos digitais, quando corremos o risco de nos tornarmos máquinas por trás de máquinas, “bytes” conversando com “bytes”.

Conforme Sbardelotto, precisamos “convocar os cristãos e cristãs para uma demonstração concreta e encarnada de amizade e diálogo sociais e, principalmente, de santidade em rede, reconhecendo que, por trás das telas, estão pessoas humanas, estão nossos ‘irmãos e irmãs’, está nosso ‘próximo’, cuja dignidade deve ser respeitada e defendida”.5

Oração e silêncio

Na sua mensagem para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais “Somos membros uns dos outros” (Ef 4, 25): “das comunidades de redes sociais à comunidade humana”, o Papa afirma: “Na social web, muitas vezes, a identidade funda-se na contraposição ao outro, à pessoa estranha ao grupo: define-se mais a partir daquilo que divide do que daquilo que une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso e outros). Ser membros uns dos outros é a motivação mais profunda para a obrigação de preservar a verdade que nasce da exigência de não negar a mútua relação de comunhão. O Papa descreve a Igreja como “uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [“like”], mas na verdade, no “amém” com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros”.

Não provocar violência verbal/digital significa fazer um discernimento; é dizer “não” a uma falsa polarização e dizer “sim” a um paradigma de superação: o da caridade. A agressividade impede o diálogo e a mensagem não chega.

O espírito maligno do “grande acusador”, especialmente em um contexto de tribulação, busca transformar desentendimentos em conflitos, polarizações em agressões, diferenças de ideias em preconceitos. Para vencer este espírito diabólico, somente o entendimento que “a unidade é superior ao conflito” (Evangelii Gaudium n.228) e pela prática das obras de misericórdia espirituais.

Onde há mal-entendidos e discussões, o ‘silêncio e a oração’ “com pessoas que não têm boa vontade, com pessoas que procuram apenas escândalos, que procuram apenas divisão, que procuram apenas destruição, também nas famílias”, é a sugestão proposta pelo Papa Francisco na missa celebrada, 3 de setembro, em Santa Marta.

O critério de discernimento da boa comunicação é o mesmo que devemos usar para a vida de cada cristão e para a vida da Igreja em geral: o de verificar se o amor cresce, se a nossa vida se vai transformando à luz da misericórdia. Sejamos testemunhas da verdadeira caridade cristã.

Por Padre Mário Marcelo, scj

Fonte: Canção Nova

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