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Porto Velho, 30 de novembro de 2021 - 20h09
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A África não pede caridade, mas reconhecimento da sua dignidade

Nesta terça-feira (25) comemora-se o Dia Mundial da África. A data recorda o aniversário da fundação da Organização da Unidade Africana em 25 de maio de 1963, dia em que os líderes de 30 dos 32 estados independentes do continente assinaram a Carta em Adis Abeba, Etiópia. O objetivo era promover a unidade e a solidariedade entre os membros e salvaguardar sua integridade territorial. Em 2009, a Organização foi substituída pela União Africana com a intenção de acelerar o processo de integração africana, apoiando os Estados africanos no contexto da economia global e enfrentando os problemas sociais, econômicos e políticos. Não somente isso: entre os objetivos havia também, e há, a promoção dos princípios democráticos, da paz, da segurança e da estabilidade no continente, a promoção e a proteção dos direitos humanos e dos povos. Hoje a União Africana conta com cinquenta e quatro Estados membros.

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Mas como vai a saúde geral da África neste momento? Fizemos a pergunta ao Padre Giulio Albanese, missionário comboniano, jornalista, colunista do L’Osservatore Romano, especialista em África:

Padre Albanese: O continente africano está passando por uma situação dolorosa, eu diria antes de tudo, pela onda de conflitos entre Estados, da Somália à República Democrática do Congo, do norte da Nigéria à recente crise em Tigray. Digamos que a lista é longa, e recordemos também dos pesados condicionamentos derivados da crise na Líbia com a constante penetração dos jihadistas em direção ao Sul, portanto em direção à África subsaariana. Se a isso acrescentarmos a crise econômica desencadeada pela Covid-19, que explodiu mecanismos recessivos sem precedentes, juntamente com a obstinação da especulação financeira internacional e a fraqueza do sistema de saúde continental, sem mencionar a mudança climática, a tão alardeada Renascença Africana, em minha opinião, neste momento parece ter desaparecido em uma bolha de sabão.

A União Africana, que seguiu a Organização de Unidade Africana, tem a capacidade e a habilidade de trabalhar pelos objetivos da sua criação?

Padre Albanese: Creio que também deste ponto de vista, é necessário ser extremamente realista. Nos últimos anos, certamente foram feitos progressos. Quando a Organização da Unidade Africana nasceu, havia muitos sonhos na gaveta, mas na verdade esta organização nunca funcionou bem. O relançamento, entre aspas, ocorreu com o nascimento da União Africana que certamente representou um progresso. Em primeiro lugar, levou a uma maior integração entre os Estados, mas acima de tudo um dos pontos fixos nos quais a Organização anterior se baseava, o fato de não poder interferir nos assuntos internos de cada país. Hoje, ao invés disso, quando há um golpe de Estado em qualquer país africano, a primeira iniciativa que é tomada por Adis Abeba, cidade sede da União, é justamente a de suspender esse Estado, essencialmente de colocá-lo fora do grupo. A questão da intangibilidade das fronteiras permanece em aberto, ainda uma espécie de princípio categórico. O problema é que, entretanto, ocorreram mudanças, pensemos no nascimento da Eritréia, que antes fazia parte da Etiópia, ou em 2011 o nascimento do Sudão do Sul, e isto significa que o grande Sudão, até então o maior país africano, foi dividido em dois. Agora, isto é motivo de preocupação, até porque sabemos que as fronteiras dos Estados são um legado do período colonial. É claro que precisamos evitar situações de conflito, mas não esqueçamos que a primeira coisa que precisamos fazer hoje para garantir a paz no continente é garantir a segurança alimentar e, em seguida, a participação democrática de todos os que, dentro dos países, são chamados a exercer seu direito de voto. Sabemos que na África este é outro grande problema, porque quando há consultas, em muitos países ocorrem com muita frequência fraudes. Mas há um aspecto fundamental: o fato de que em qualquer caso na África – mas seria mais correto falar no plural, nas Áfricas, porque é um continente três vezes maior que a Europa – existe uma sociedade civil que está amadurecendo e é composta por uma galáxia de associações, movimentos e grupos, incluindo as realidades eclesiais cristãs, que estão comprometidos com a afirmação do direito à cidadania e acredito que a sociedade civil, em suas múltiplas articulações, constitui verdadeiramente o terreno fértil para os que serão as futuras classes dirigentes. Acredito que esta é uma aposta que deve ser feita e na qual devemos nos concentrar.

Conflitos, mudanças climáticas, desnutrição, migração e corrupção continuam a assolar a África, e nossa imagem do continente é, em sua maioria, negativa. Há alguma coisa que possa mudar nossa mente, como a que o senhor mencionou, que nos tornará mais abertos também à beleza da África?

Padre Albanese:  Acredito que o desafio é, acima de tudo, cultural. Ou seja, temos que colocar na cabeça que certos clichês que pertencem à nossa imaginação realmente precisam ser demolidos. Por exemplo, a África não é absolutamente tão pobre quanto se pensa muitas vezes. Talvez tenha se empobrecido, mas isso é outra coisa. A África não está pedindo caridade, está pedindo o reconhecimento de sua própria dignidade. Se este continente fosse verdadeiramente respeitado, não apareceria como uma espécie de terra de conquista por parte de organizações multinacionais estrangeiras e empresas privadas. A África realmente precisa de cooperação inteligente e criteriosa porque, se olharmos para os números da UNCTAD, o paradoxo é precisamente este: que os africanos como um todo, que as Nações africanas, dão muito mais dinheiro às Nações ricas e industrializadas do que presumivelmente eles dariam às Nações africanas. E isto porque existe uma forte atividade especulativa precisamente sobre a riqueza natural do continente. Outro aspecto muito importante é a questão da dívida. Quando o dinheiro é emprestado aos países africanos, assistimos à conhecida “financeirização” da dívida. Basicamente, significa que o pagamento de juros está ligado à especulação na bolsa de valores, e é um sistema vexatório porque foi matematicamente demonstrado que, se a dívida for “financeirizada”, o recebedor do dinheiro, o beneficiário, nunca estará em condições de pagar, de acordo com o cronograma, o que recebeu. Aqui me refiro em particular ao mecanismo de juros. Portanto, há algo sistemicamente errado, que impede o tão almejado desenvolvimento.

Fonte: Vatican News

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