Porto Velho, 20 de agosto de 2019
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Conselho Indigenista denuncia situação de quase 18 mil indígenas sem ir à escola este ano

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) denunciou na última semana que 17.460 estudantes indígenas de Roraima ainda não tiveram aulas neste ano. Lideranças dos povos Wapichana e Macuxi estiveram em Brasília para participar de audiência, ocasião na qual tiveram a justificativa que a falta de oferta dos serviços públicos de educação se deve por conta do contingenciamento de recursos no Ministério da Educação (MEC).

Durante audiência, o diretor de Políticas para Modalidades Especializadas de Educação e Tradições Culturais Brasileiras do MEC, Fabrício Storani de Oliveira, explicou que “agora, por conta do contingenciamento dos recursos, é preciso compreender que esta medida não é apenas para as universidades”.

A denúncia dos indígenas está relacionada à falta de professores e recursos para aquisição de material didático, merenda e transporte escolar. O Cimi pondera que o diretor do MEC preferiu questionar as lideranças sobre o impacto dos venezuelanos nas comunidades e na educação como causa da situação: “sabemos que a imigração tem gerando impactos em outras áreas, como a saúde”.

O coordenador-geral de Educação Indígena, Quilombola e do Campo do MEC, Sérgio de Oliveira, que também esteve na audiência, reconhece que faltam ser construídas 1.029 escolas indígenas no Brasil. Do total, o déficit em Roraima chega a 391, sendo que 54% das escolas em funcionamento no estado não usufruem de prédio próprio. Situação que parece longe de ser revertida com os atuais contingenciamentos de recursos do MEC, que geram cortes imediatos de recursos para escolas e universidades. Roraima tem 260 escolas indígenas: 96% delas foram construídas pelas próprias comunidades.

A delegação, composta por nove lideranças, cobrou ainda a realização de concurso público específico para a contratação de professores indígenas. “Temos 1.460 professores habilitados, a serem contratadas de acordo com realização do Processo Seletivo Específico Indígena que ocorreu em abril, mas nenhum foi chamado até agora”, denuncia o professor Telmo Ribeiro Macuxi.

Conforme relatam as lideranças, o governador de Roraima Antonio Denarium (PSL) alega que o governo anterior gastou além do previsto em seu orçamento. As lideranças exigem o apoio do ministro da Educação Abraham Weintraub, e de todos os parlamentares do Estado, senadores e deputados, para que intervenham junto à Educação Escolar Indígena.

“Tivemos um grande prejuízo no que diz respeito ao fechamento do ano letivo 2018, o atendimento de material didático e merenda foi um caos na Educação Escolar em Roraima, e eu não digo apenas na educação indígena, e olha que as escolas indígenas sempre são as últimas a serem atendidas. É um desrespeito com os direitos dos estudantes do Estado”, denuncia Telmo.

Em Roraima, os povos da Terra Indígena Raposa Serra do Sol correspondem por mais de 20 mil pessoas das etnias Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingaricó e Patamona. A população vem crescendo organizada em mais de 200 aldeias ou comunidades nas regiões de Surumu, Serras, Baixo Cotingo e Raposa. Estes povos estão mobilizados no Conselho Indígena de Roraima e conseguiram, nas últimas eleições, eleger a primeira mulher indígena deputada federal, Joênia Wapichana.

Assim como a educação especializada, uma das preocupações que fazem parte do trabalho é iniciar as novas gerações na fé cristã por meio de uma catequese inculturada, que inclua a valorização e o uso das línguas indígenas. O padre Ronaldo B. MacDonell, linguista canadense, da Sociedade Missionária de Vida Apostólica (SOMIVA), coordena o projeto de resgate e valorização da língua macuxi por meio de estudos, publicações e seminários nas comunidades. Saiba mais.

Com informações e foto do Cimi (Adi Spezia)

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