Recordamos, nestes dias, a expulsão de dezenas de milhares de cristãos iraquianos da Planície de Nínive. Em 2014, a expansão do autoproclamado Estado Islâmico, ISIS, obrigou grande parte da população da região a deixar suas casas. Hoje, segundo o padre Renato Sacco, o retorno ainda não terminou, mas a esperança continua, sobretudo, depois do encontro com o Papa.

Giancarlo La Vella – Cidade do Vaticano

Milhares de cristãos iraquianos foram obrigados a deixar suas terras na Planície de Nínive em 2014. O avanço dos milicianos do autoproclamado Estado Islâmico (ISIS) provocou um verdadeiro êxodo de dimensões bíblica. Ainda hoje, muitos tentam voltar às suas casas.

Padre Renato Sacco, da Pax Christi, declarou ao Vatican News-Rádio Vaticano que “não devemos deixar os iraquianos da Planície de Nínive sozinhos, embora a reconstrução e o retorno serão longos e extenuantes”.

Padre Renato Sacco, há sete anos os cristãos iraquianos da Planície de Nínive viram-se repentinamente mergulhados em um verdadeiro inferno. O que aconteceu exatamente?

Há sete anos, na noite entre 6 e 7 de agosto, – dia da Transfiguração e aniversário da bomba atômica em Hiroshima, – o autoproclamado Estado Islâmico (IS), que já há algum tempo dominava aquele território e a cidade de Mosul, expulsou 100 mil pessoas da Planície de Nínive. Foi um verdadeiro êxodo de dimensões bíblicas. A maioria, composta por cristãos, refugiou-se em Erbil. Fiquei sabendo disso porque, pela manhã, conversei com o Patriarca, Louis Sako, e também com outras pessoas e telefonei para algumas agências de notícias. Porém, todos me disseram, por unanimidade, que não se tratava de uma boa notícia. O único meio de comunicação que transmitiu a notícia foi a Rádio Vaticano. Assim, muitos jornalistas, que não haviam acreditado em mim, me ligaram, pois perceberam a gravidade do que ocorria. Foi um verdadeiro êxodo bíblico. Sem contar que, nos anos anteriores, em 2008, o bispo caldeu de Mosul, Dom Faraj Raho, havia sido sequestrado e assassinado; antes dele, também seu jovem pai, Rashid Ghani, com três companheiros, haviam sido assassinados. Muitos sofreram por aquela tragédia: numerosas mulheres foram sequestradas e escravizadas sexualmente, mas milhares delas ainda se encontram nesta trágica situação.

Quando os cristãos conseguiram voltar para Nínive?

Passou muito tempo, porque muitos permanecem, até hoje, sobretudo em Erbil. Após a queda do Estado Islâmico, muitos voltaram, mas com dificuldade. Mas não esqueçamos que, antes de tudo, a destruição foi enorme e não se pode reconstruir tudo em dois minutos, mesmo porque haviam bombas que não haviam explodido, casas com minas, armadilhas… Por isso, as pessoas não podiam retornar para suas casas, como acontece após uma inundação. A reconstrução, penso nos centros que mais conheço, como Qaraqosh e Mosul, acontece pouco a pouco. Mas diria que estão voltando à ganhar vida. Em Mosul, por exemplo, boa parte da cidade que foi completamente destruída, não é mais habitada, inclusive algumas casas ainda estão ocupadas, por isso alguns não podem retomar a posse de suas casas. Digamos que existe um retorno, mas ainda é bastante lento e difícil, não obstante seja cheio de esperança.

Imagem de Nossa Senhora vandalizada pelo ISIS na Missa presidida pelo Papa em Erbil

Imagem de Nossa Senhora vandalizada pelo ISIS na Missa presidida pelo Papa em Erbil

Durante sua Viagem Apostólica em março deste ano, o Papa quis levar, pessoalmente, conforto e esperança aos cristãos e habitantes de Nínive. O que ficou daquele encontro?

Como colocamos no título da revista Pax Christi, “Mosaico de Paz”, acredito realmente que aquela viagem foi algo clamoroso para aqueles habitantes e para o Ocidente, pelo que o Papa disse e fez. Uma religiosa disse-me que, naqueles dias da Viagem de Francisco, não houve diferenças religiosas, todos eram iraquianos, porque a tragédia se referia a todos os iraquianos. Portanto, acredito que seja importante que o Papa tenha sido visto como um sinal de esperança para todos, também para o Ocidente, porque foi um grande apelo para nossa consciência. Nenhum líder político do mundo fez o que o Papa Francisco fez: ele encontrou o aiatolá Al-Sistani, denunciou a guerra e os traficantes de armas. Na volta da sua Viagem, o Papa dirigiu a nós, ocidentais, uma pergunta um pouco provocatória: “Quem vende armas?”. Toda a destruição é consequência evidentemente dos grandes interesses dos traficantes de armas, que envolve cada um de nós em primeira pessoa.

Então, podemos dizer que a viagem papal deu novo impulso à esperança dos iraquianos?

Certamente! A sua viagem foi uma injeção de esperança, que continuará a circular e levar algo de positivo aos habitantes. Porém, não os devemos deixar sozinhos, porque os problemas são muitos: a dificuldade da retomada, a convivência, a superação da corrupção em nível político. Sabemos que, no próximo mês de outubro, haverá eleições políticas no Iraque, um país dilacerado tanto pela guerra quanto pela corrupção. Esses, portanto, são sinais de esperança. Mas, repito, não os devemos deixar sozinhos, como sempre fizemos, em plena guerra, deixando que suas matérias-primas, como o petróleo, sejam roubadas. Como diz o Papa Francisco, somos todos irmãos! Os cristãos iraquianos de rito caldeu ou de outros ritos e os muçulmanos ou yazidis são nossos irmãos e irmãs. Eles precisam manter viva a sua esperança!.

Tudo isso, sem esquecer que o Iraque, como todos os países do mundo, está lutando contra a emergência pandêmica da Covid

Sim! Além do mais, temos que enfrentar o Coronavírus, um esforço maior ainda. Um motivo a mais para que não sejam esquecidos.

Fonte: VaticanNews

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