terça-feira, abril 20, 2021
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Kasper: Küng, crítico e combativo, mas foi um homem de diálogo

Em entrevista ao L’Osservatore Romano, o presidente emérito do Dicastério vaticano para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Walter kasper, recorda o teólogo suíço Hans Küng falecido esta terça-feira (06/04), do qual foi assistente universitário nos anos sessenta: as claras diferenças no campo doutrinário nunca afetaram a estima e o desejo de dialogar

Profundamente ligado em seu coração à Igreja, ele jamais pensou em abandoná-la, mas também a criticou duramente, abrindo discussões e debates, especialmente sobre alguns dogmas fundamentais, tais como a infalibilidade do Papa. Em resumo, este é o retrato que o presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Walter Kasper, traça do teólogo suíço Hans Küng, que morreu esta terça-feira, 6 de abril, aos 93 anos de idade. Nesta entrevista ao L’Osservatore Romano o cardeal alemão relata sua experiência pessoal com Küng, de quem foi assistente na Universidade de Tübingen de 1961 a 1964 e com quem manteve um vínculo de estima e respeito, mesmo discordando do conteúdo teológico de seu pensamento.

Como conheceu o teólogo suíço?

Eu o conheci pela primeira vez quando estava fazendo meu doutorado na Universidade de Tübingen. Foi no final dos anos cinquenta. Em 1961 recebi o título de doutor em Teologia e imediatamente depois, até 1964, fui assistente dos professores Leo Scheffczyk e Hans Küng. Aprendi com os dois. Depois, quando consegui a habilitação do doutorado em 1964, mudei-me para a Faculdade de Teologia de Münster para ensinar teologia dogmática.

Qual era sua relação com Küng?

Meu relacionamento com ele foi bom. Naquela época, colaboramos bem. Mais tarde nos distanciamos sobre a questão do dogma da infalibilidade papal e sobre outras questões cristológicas e teológicas. Lembro que me distanciei dele quando a Congregação para a Doutrina da Fé, em 1979, revogou sua missio canonica, ou seja, a licença para ensinar teologia. Isso desencadeou uma verdadeira crise na faculdade, que se dividiu. Nas últimas décadas, nossa relação sempre foi de respeito mútuo. Trocamos regularmente saudações e votos de felicidades em ocasiões festivas. É claro que as diferenças teológicas permaneceram, mas no nível humano a relação era linear e pacífica. Especialmente por ocasião de seu aniversário de 80 anos, tivemos uma troca de cartas muito bonita.

Sobre que pontos, em particular, o senhor discordou de Küng?

Küng não era simplesmente uma voz crítica em relação à Igreja ou um rebelde. Ele era uma pessoa que queria suscitar uma renovação na Igreja e implementar a sua reforma. Havia uma base comum, como a teologia neo-escolástica, baseada na Bíblia e na pesquisa histórica. Ele, entretanto, a meu ver, foi além – além da ortodoxia católica – e, por conseguinte, não permaneceu ancorado a uma teologia baseada na doutrina da Igreja, mas “inventou” sua própria teologia. Como Yves Congar disse certa vez, Küng era católico, mas à sua própria maneira. Ele se sentiu interpelado como teólogo a mudar as coisas na Igreja e conseguiu, efetivamente, explicar o Evangelho também a pessoas distantes da fé. Nisso ele fez bem, mas sua eclesiologia é demasiadamente “liberal”. Ele também se distanciou da posição do teólogo suíço Karl Barth, seu grande mestre. Em um ponto, porém, eu estava de acordo com ele: sobre a necessidade de um diálogo ecumênico. Ele deu o primeiro passo nesse âmbito. Entretanto, estávamos distantes e havia diferenças quanto à doutrina da justificação e aos ministérios na Igreja. Em todo caso, com ele se podia conversar. Era um homem combativo: amava um diálogo em fortes matizes. As diferenças permaneceram entre nós, mas jamais se criou inimizade.

Eram mais questões de mérito ou de método?

Não era apenas uma questão de método, mas de claras diferenças de conteúdo, especialmente, como eu disse, sobre a infalibilidade do Papa e sobre Jesus como Filho de Deus.  Não contesto o fato de que se pode criticar, mas isso depende de como se diz as coisas. E ele criticava à sua própria maneira, duramente, às vezes injustamente. Por outro lado, ele tinha uma linguagem compreensível para todos quando explicava a religião àqueles que estavam distantes ou haviam se afastado da fé e da Igreja.

Qual é o legado que ele deixou para a Igreja?

Creio que ele deixou um importante legado para a faculdade teológica de Tübingen, especialmente na questão do diálogo inter-religioso. Por isso, ele ganhou respeito também fora da Igreja. Em 1993 ele criou a Fundação Weltethos (Ética mundial), para promover a cooperação entre as religiões através do reconhecimento de valores comuns. Não somente isso: ele também deixou à Igreja outras ideias de reforma que se tornaram atuais na Alemanha. Dito isto, eu pessoalmente tenho dúvidas sobre estas reformas. Estou em outra posição, porque ele queria a ordenação das mulheres e a abolição do celibato.

Ele levou adiante suas batalhas com franqueza mesmo permanecendo no seio da Igreja?

Ele jamais deixou a Igreja e jamais quis sair dela. Muitos teólogos deixaram a Igreja após o Concílio Vaticano II. Ele não. No fundo de seu coração, ele era católico. Certamente, seu comportamento nem sempre o era. Mas isto é outra coisa: ele jamais pensou em deixar a Igreja. E isso é muito importante. Além disso, no final de sua vida, houve uma aproximação com o Papa Francisco. No verão passado, liguei para o Pontífice e lhe disse que Küng estava perto da morte e que queria morrer em paz com a Igreja. O Papa Francisco me disse para lhe transmitir suas saudações e bênçãos “na comunidade cristã”. Certamente as diferenças teológicas haviam permanecido e não foram resolvidas. A esta altura, já não podiam mais ser discutidas. No nível pastoral e humano, no entanto, houve uma pacificação. Ele mesmo, após seu 90º aniversário, há três anos, falou de uma reabilitação de fato, não jurídica. Com a eleição do Papa Francisco, houve um certo consenso de sua parte ao magistério petrino, mas ele o interpretou demasiadamente com as ideias de seu tempo. No entanto, posso assegurar que ele estava ansioso pela reconciliação. Ele queria morrer em paz com a Igreja, apesar de todas as diferenças.

Como foi a relação entre os dois professores e teólogos Joseph Ratzinger e Hans Küng?

Ratzinger foi professor em Tübingen durante dois anos e meio, na mesma faculdade de Küng. Eles se conheceram em 1957 e colaboraram como especialistas em teologia na última sessão do Concílio Vaticano II. Estavam em diferentes posições teológicas. Eles se estimavam e se respeitavam mutuamente, mas não estavam de acordo. Quando Ratzinger tornou-se Papa Bento XVI, convidou o teólogo a Castel Gandolfo para um encontro e uma discussão aprofundada, não sobre diferenças, mas sobre questões gerais de teologia. A estima e o respeito mútuos ainda perduravam. Devo dizer que Küng havia falado mal de Ratzinger no passado. E isso para mim era inaceitável. No entanto, acredito que a estima de Ratzinger tenha permanecido mesmo nos últimos meses. Eu sei que Bento XVI rezou por ele, a relação pessoal entre os dois não foi interrompida.

Fonte: Vatican News

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